18 de julho de 2008

No silêncio da Noite

A respiração de Carla era tão ofegante que ela mal conseguia respirar, pensou que teria um ataque cardíaco no instante em que chegou em frente ao portão do prédio onde mora no número 985 da Av Lajeado, tateou os bolsos à procura das chaves e não encontrou nada, o desespero tomou conta dos seus pensamentos e num impulso virou a bolsa que carregava a tira colo de boca para baixo e revirou as coisas que caíram no chão, entre elas estava as chaves que procurava, apanhou-as e tentou colocá-la no buraco correspondente e as deixou cair, nervosa demais ela olhou ao redor procurando se encontrava quem a seguia, não viu ninguém. Tateou novamente o chão atrás da bendita chave, apanhou-a e desta vez conseguiu abrir o portão, passou tão rápido por ele que sequer pensou em fechá-lo, abriu a porta do prédio por puro instinto e pressionou o botão do elevador, mal conseguia distinguir as letras do aviso que dizia que o elevador estava estragado. Ela subiu as escadas com tanta rapidez que sequer percebeu que ele ainda a estava seguindo. Deixou cair novamente as chaves ao tentar abrir a porta do apartamento, olhou para a escada e lá estava o vulto subindo em sua direção, conseguiu pegar as chaves e já estava chorando quando abriu a porta. Finalmente conseguiu entrar em casa, mas o vulto estava perto demais e ela não conseguiu evitar que ele entrasse no seu apartamento. Carla deu um pulo e então pegou uma cadeira e jogou sobre o sujeito acertando-o em cheio a cabeça deixando-o cambaleante. Aproveitou para pedir socorro. Seus gritos ecoaram pelo prédio sem nenhuma resposta, ela então correu para a cozinha a procura de alguma ferramenta que pudesse usar como arma para se defender. Escondeu-se atrás de uma pilastra que separava a cozinha da sala de jantar com o rolo de macarrão nas mãos. Ficou em silêncio tentando controlar a respiração. A essa altura não conseguia distinguir nada, apenas rezava baixinho pedindo a Deus que o mandasse embora. Sua prece não foi atendida. A sombra sinistra passou de um lado para o outro da porta que separa a cozinha da sala. Carla teve o impulso de sair correndo, mas ficou imóvel. Levantou-se lentamente e foi em direção ao quarto. Lembrou que tinha uma arma no guarda-roupas e se conseguisse correr muito poderia até pegá-la para se defender. Foi o que fez, correu o mais que pôde e entrou no quarto, abriu o guarda-roupas e passou a procurar pela arma, levou tempo demais procurando, quando se deu conta de que a esta altura o sujeito poderia estar dentro do quarto, parou de procurar. Quando pensava em olhar dentro do quarto para ver se tinha mais alguém com ela percebeu que tinha algo estranho acontecendo. Olhou para o chão e viu que tinha algo molhado junto aos seus pés, passou a mão no chão e trouxe até o nariz. Percebeu desesperada que aquilo era sangue, não conseguia imaginar de onde seria, tentou se mover mais era impossível qualquer movimento. Ela levou tempo demais procurando pela arma, e o cheiro do próprio sangue foi o último a sentir. As luzes se apagaram. Não havia mais nada que pudesse ser feito. O vulto afastou-se sem pressa deixando-a com uma perfuração nos pulmões e a faca ainda cravada às suas costas, retirou-se do quarto e foi até a cozinha, arrumou tudo no seu lugar, pegou a vassoura e varreu tudo o que se quebrara e com uma pá colocou no cesto de lixo, juntou os pedaços da cadeira e os colocou em pé junto à máquina de lavar na área de serviço. Dirigiu-se ao quarto e continuou a arrumação. Nenhum barulho naquela noite fora capaz de tirar o sono dos moradores daquele prédio.

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