Todos os dias, de segunda a sexta-feira, eu acordo às 06h e 45min.
Todos os dias, de segunda a sexta-feira, eu ligo a tevê e assisto ao jornal matinal, preparo um café e visto minha roupa para sair de casa para o trabalho. Chego à garagem todos os dias às 07h e 30min. Coloco o baú em cima da moto e saio às 07h e 35min. Todos os dias, sem exceção, eu faço tudo igual. Isso já faz um ano. Faça chuva ou faça sol, lá vou eu cumprir o meu papel na sociedade. Não tem um dia que eu não desgrace a minha má sorte. Não tem um único dia em que eu não tenha vontade de parar a moto na beira da rua e sair caminhando sem rumo. Principalmente depois de ver um acidente com vítima fatal. Nesse ano de trabalho com a moto eu já vi muitos acidentes. Alguns gravíssimos, outros nem tanto.
Eu estava cumprindo um ordem de serviço dentro de um prazo de horário estipulado pela secretária que distribui as tarefas. Dentro deste prazo eu estava pontual, entretanto surgiu uma O.S urgente, dessas que alguém "esqueceu" de fazer o serviço no horário e então sobrecarrega o operário. Como era novo na empresa e queria mostrar serviço, eu não pensei duas vezes antes de aceitar a tarefa. Apressando o "passo" eu acelerei um pouco mais que o de custume. Andando pela Castelo Branco em Porto Alegre eu podia andar até 80km/h, naquele dia eu estava a 100km/h. Claro que é uma velocidade segura, já que a pista estava livre e o tráfego não era intenso, apesar de pista estar molhada e qualquer descuido poderia ser fatal.
Sim, o telefone tocou novamente, perguntando se já estava perto do destino, respondi que em cinco minutos estaria lá e continuei a correr. Havia uma obra de recapeamento na saída do viaduto que desemboca na Av. Mauá, portanto fora feito um desvio. Era necessário usar a saída da direita, que dá acesso ao túnel da Conceição. O trânsito ali era intenso e ao longe se percebia os carros todos parando, mas a minha cabeça não estava ali naquele momento, havia a preocupação com o horário da entrega que estava expirando e tudo o que eu via naquela hora era um relógio me chamando de incopetente. O freio da moto não venceu a curva e o ônibus e o caminhão à minha frente não me deram passagem. Mesmo assim eu continuei, sabia que com a minha moto cg titan 125 cc eu passaria pela fresta que surgiria a qualquer momento, sempre surge, e eu passaria tranqüilo por ali. No entanto não surgiu nenhuma fresta desta vez, a pista molhada me fez derrapar e eu perdi o controle da minha moto, como a velocidade àquela altura era baixa, algo em torno de 80km/h numa curva molhada em um elevada e com um ônibus e um caminhão à minha frente, só me restou rezar e pedir que Deus tivesse piedade da minha alma e que não deixasse minha esposa desistir de dar o melhor que pudesse aos nosso casal de filhos, uma menina linda de seis anos e um menino maravilhoso de dez. Ele estava bem faceiro pois havia passado de ano e cursaria agora a terceira série do ensino fundamental, já estava até ensinando a pequena a ler. Que pena que eu não poderei vê-los crescer. Esse ônibus e esse caminhão à minha frente não vão permitir isso. Minha moto caiu e eu fui arremessado em direção ao ônibus, deslizando pelo asfalto molhado eu tive tempo de ver a roda do ônibus passar por cima de mim, não senti dor alguma, mesmo que meu corpo estivesse esmagado embaixo daquele ônibus, eu estava vivo ainda quando o caminhão que vinha logo atrás, que não conseguiu parar, passou por cima da minha cabeça.
Logo em seguida o tumulto foi generalizado e eu pude ver claramente que muitas pessoas estavam horrorizadas com a cena. Pude perceber que um motoqueiro, um colega de profissão, que eu não conhecia, estava chorando copiosamente. Fui até ele e pedi que contasse a minha história. Pedi que avisasse aos patrões que todas as vezes que eles pedirem para que seus comandados corressem para realizarem uma tarefa a mais dentro de um horário apertado, para que eles pensassem um pouco, que parassem por um instante de pensar no lucro que já é alto e olhassem para seus operários e lhes dessem uma chance de volrarem para casa, para sua família.
Para sua vida.
Assim como voltam todos os que tiveram mais sorte que eu.
5 comentários:
A ro tina é foda!!!!
parabéns pelo blog muito bem elaborado!!!
tu sabe que já sou tua fã faz tempo... mas agora tu arrasou... parabéns... bjks..
E eu que já tava quase chorando.
Mas quando li a palavra Deus,fiquei aliviado,pensei:esse não é o meu irmão.
ele é meu irmão,assim como todos os outros apenas tem uma opinião diferente daquela que temos... essa de não crer na existencia de Deus; isso pra mim é trauma de infancia, rebeldia de adolescente e magoa de adulto...mas meu irmão...se não acreditas Nele porque quando se referes a Ele do mesmo modo que eu que acredito me refiro??? beijos te amo!!!
Quando me referi:"esse não é o meu irmão" tava falando do personagem que jazia morto, não do autor.
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